Quando o número vira coisa, a criança entende de verdade
Quanto é dois? Para um adulto, a resposta é imediata. Para uma criança de quatro ou cinco anos, essa pergunta só começa a fazer sentido quando dois é algo que ela pode ver, tocar, empilhar, cortar ou colar. É exatamente aí que a matemática da primeira infância se diferencia de tudo que vem depois: ela não começa na abstração, começa na mão.
As turmas do Pré II da Escola Franciscana Imaculada Conceição viveram isso na prática em atividades de identificação, sequência numérica e quantidade conduzidas pelas professoras Charlene Delgado Morel Ferreira, Rafaela Caetano de Paiva Pael e Maria Inês Amaro Ramos, cada uma com sua turma, mas todas guiadas pela mesma convicção pedagógica: para que o número faça sentido, ele precisa primeiro existir no mundo concreto da criança.
A neurociência do desenvolvimento aponta que crianças nessa faixa etária estão no estágio pré-operacional, descrito por Piaget, em que o pensamento lógico ainda se constrói a partir da manipulação física de objetos. Oferecer atividades matemáticas que passam pelo corpo não é uma alternativa lúdica ao aprendizado real. É o próprio caminho para ele. Cada gesto que as crianças realizaram nessas atividades tinha um propósito preciso.
Algumas cortaram os numerais, um trabalho que exige coordenação motora fina, atenção à forma e reconhecimento visual do símbolo. Outras empilharam, desenvolvendo noção de quantidade, equilíbrio e correspondência. Houve quem colasse os números em sequência, construindo na prática a ideia de ordem e progressão numérica. E houve também o desafio de achar o número certo, ativando a identificação, a comparação e a memória visual.
Cada uma dessas ações, aparentemente simples, responde a uma das três grandes competências que a matemática da educação infantil precisa desenvolver: reconhecer o símbolo, compreender a quantidade que ele representa e entender que os números seguem uma ordem com sentido. Quando uma criança cola o três depois do dois porque percebe que é assim que funciona, ela não está seguindo uma instrução. Ela está construindo um raciocínio.
A Escola Franciscana Imaculada Conceição entende que o pensamento matemático não começa com a tabuada. Começa quando uma criança pequena descobre que pode organizar o mundo ao seu redor, que as coisas têm ordem, que os números têm significado e que ela é capaz de encontrá-los, sequenciá-los e reconhecê-los. Plantar essa descoberta com cuidado e intencionalidade na educação infantil é garantir que, quando os números ficarem mais complexos, a criança já saiba, no fundo, do que se trata.