A biblioteca que virou palco há 25 anos

ESCOLA FRANCISCANA IMACULADA CONCEIÇÃO
A biblioteca que virou palco há 25 anos
Apresentação da peça "Uni Duni Tê, O Escolhido Foi Você", celebrando os 25 anos do Passa Anel.

Dentro da biblioteca da escola havia uma sala pequena, chamada de sala do conto. No intervalo, enquanto o resto da turma corria para o pátio, um grupo pequeno se trancava ali para interpretar poesias e trechos de texto uns para os outros. Ninguém de fora sabia direito o que acontecia naquela sala. Só quem entrava sabia.

A irmã Maria Ana passou pela porta da sala do conto mais de uma vez, viu aquelas crianças criando cenas, e decidiu que as histórias mereciam sair dali. Ofereceu as primeiras oficinas de teatro aos sábados, e o pequeno clube da biblioteca ganhou seu primeiro passo para fora das quatro paredes.

Depois veio a irmã Marlene, que encontrou um grupo já maior do que cabia num sábado só. Organizou duas turmas no contraturno pela manhã e duas à tarde, dando ao Passa Anel a estrutura que faltava. Foi ela também quem, num convite quase caseiro, pediu que os próprios funcionários da escola encenassem uma apresentação de Natal para todos os alunos. A ideia pegou, virou tradição, e se repete até hoje.

Anos depois, chegou a irmã Aparecida. Ela assistiu às peças, viu de perto a vontade daquelas crianças de crescer, e decidiu ir além do que a escola sozinha conseguia oferecer. Foi ela quem levou o Passa Anel até a prefeitura e fechou uma parceria que colocou o grupo, pela primeira vez, dentro do Teatro Municipal. A partir dali, virou compromisso anual, sempre em agosto, sempre com peças de temática literária. Na Casa do Mestre André foi encenada três vezes seguidas de tão pedida pelo público. Das Páginas para as Telas também entrou para o repertório de maior sucesso do grupo.

Em 2019, o Passa Anel subiu ao palco do Teatro Municipal pela última vez naquele endereço, comemorando 18 anos de história, pouco antes de o espaço fechar para reforma. Ninguém sabia, na época, que o intervalo seguinte seria ainda mais longo. A pandemia suspendeu as atividades em 2020 e 2021, e o silêncio que tomou conta do grupo foi diferente de qualquer pausa anterior. O retorno veio devagar: em 2022, com uma apresentação pequena, só dentro da escola, quase como um recomeço tímido. Em 2023, veio o novo endereço: o Auditório 2 da Universidade Federal da Grande Dourados, através da parceria com o Projeto Cuidar.

Enquanto o cenário mudava, as próprias crianças que chegavam ao projeto também mudaram. Vinte e cinco anos de trabalho revelaram uma geração com menos brincar livre, menos rua como espaço de convivência, menos tempo passado em grupo. O repertório motor que antes vinha pronto da infância na rua agora precisa ser construído do zero dentro do próprio processo, e ensinar brincadeiras tradicionais e presença de palco virou um trabalho mais longo do que costumava ser.

"Foi um trabalho muito intenso. Ensinar algo que não faz parte do cotidiano deles, resgatar memórias. Ir contra o 'tempo' deles. Mas eles venceram, superaram as ansiedades, os medos, e é um processo."

A fala é da professora Rejani Betoni Garcia Vendramini, coordenadora da Oficina de Teatro Leitura, à frente do Passa Anel desde o início. Há mães que acompanham o grupo há anos e veem, de perto, crianças tímidas ganharem autonomia e autoconfiança até brilharem no palco. Não para virarem atrizes ou atores, ela diz, mas para se tornarem pessoas que respeitam e se fazem respeitar. Sobre seu próprio método, resume em uma frase: um jeito de educar "à moda antiga", que ainda colhe frutos.

Neste ano, o palco foi o Auditório da UFGD, para a peça Uni Duni Tê, O Escolhido Foi Você. O professor Dr. Etienne Biasotto, reitor da universidade, cedeu o espaço mais uma vez. A professora Giselma Chacarowski foi quem viabilizou a parceria com o Projeto Cuidar, que transformou a própria plateia em parte da história: cada família trouxe um livro como ingresso solidário, encaminhado depois para outras crianças, entre elas crianças indígenas que também estão aprendendo a ler.

Um livro que entra pela porta do teatro sai, semanas depois, nas mãos de outra criança, em outro canto de Dourados. A direção e a equipe do teatro da EIC, e as famílias que sustentam ensaio após ensaio, seguraram essa engrenagem por 25 anos. No fim da noite, entre aplausos, ficou a mesma cena que começou tudo, numa sala pequena dentro de uma biblioteca: crianças em pé, sendo vistas. Só que dessa vez, por uma plateia inteira.

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